Milfontes: Quadros da sua História - 2

"Em frente de Milfontes, o Mira alarga-se consideravelmente, para formar um lindo porto
sobre o qual se eleva a povoação. É esta uma terra verdadeiramente encantadora, com as suas
casas pequenas e muito caiadas , com as suas ruazinhas limpas, com o seu velho castelo qua-
se em ruínas, levantando-se abruptamente sobre o espelho claro do rio, com a sua vista para o
mar, com o seu ar fresco, cheirando a algas, e com os seus brejos cercados de sebes e madres-
silvas. Lembro-me com saudade desta deliciosa e tranquila aldeia de pescadores."
 
Alberto Sampaio, 1908
 


 A paisagem idílica transmitida pela descrição impressionista do famoso botânico foi criação de uma natureza amável e generosa. E se a ambiência que nela perpassa evoca uma época acabada, em que uma população de pequenos lavradores/pescadores fazia lentamente a sua história de comunhão com a terra e o mar, o estuário do Mira e seus arredores permanecem como base física do actual ciclo económico e social de Vila Nova de Milfontes.
O longamente desejado progresso chegou enfim, sob a forma de turismo. Um turismo de massas, iniciado timidamente nos anos 60 e acelerado nas décadas seguintes, que transformou o paradisíaco lugar de vilegiatura estival das pessoas de posses da região, na agitada e cosmopolita estância actual.
 
Sob o Signo da Água
 
O elemento líquido tem estado presente ao longo da história local e reflectiu-se na toponímia. O próprio nome de Milfontes (mil + fontes) indica a existência de uma terra de águas abundantes. Mil, neste caso, não significa um numeral preciso, mas um número grande e indeterminado, como é vulgar na língua portuguesa. Fontes, por seu lado, relaciona-se com "nascentes de água". Portanto, terra de muitas águas – em resultado da constituição geológica do sítio onde nasceu. Hoje, essa realidade está algo alterada, fruto da acção humana recente.
O nome, de contornos poéticos, foi durante muito tempo alvo da implicância de detractores. Diziam-no uma mentira, pois não existiam mil fontes. Um viajante inglês, que por aqui passou em 1801, escreveu, sarcástico, que "the new town has all old houses and the inhabitants of the town of a thousand fountains are obliged to drink well water". Nem ele, nem os outros perceberam.
A origem do nome do próprio rio é curiosa. Houve quem quisesse ver nele uma palavra árabe ou germânica. Fantasias! A palavra Mira, pensam hoje os especialistas, provem da antiga língua falada na região, antes dos romanos, antes, antes mesmo dos celtas. E, tudo indica, significa "curso de água", isto é, "rio". Portanto, as antigas populações chamavam ao rio, simplesmente... rio. Quem não entendeu o antigo falar da população foram os sucessivos povos que posteriormente estiveram na Península. Com efeito, eles julgaram estar perante um nome próprio. Por isso, os romanos ter-lhe-ão chamado Mira flumen e os árabes designaram-no por ode Mira. E assim se repetia em diferentes línguas a mesma ideia.
 
Criação da Vila de Milfontes

Completada a chamada "reconquista", com a vitória dos reinos cristãos e consequente colapso da civilização islâmica, mais evoluída mas em irremediável desvantagem populacional e militar, todo o litoral alentejano se apresentava como um espaço escassamente povoado e desorganizado. O rei de Portugal doou-o à Ordem de Santiago, poderosa organização militar-religiosa, cuja milícia teve papel importante na guerra contra o "infiel".Em 1 de Setembro de 1486, o rei D. João II mandou passar carta de fundação de uma nova vila, no sítio chamado Milfontes, junto à foz do Mira. 
 
Desanexou o seu território do concelho de Sines, a que antes pertencia, e criou, deste modo, um novo concelho, em que incluiu o lugar do Cercal. A criação da vila de Milfontes resultou assim de uma decisão “vinda de cima” e inscreveu-se no movimento de criação de “vilas novas”, com as quais a Coroa pretendeu efectivar a organização e o controlo do território.

A intenção real era dotar a foz do Mira de uma povoação e de um verdadeiro porto, tendo em vista o apoio e a segurança do comércio marítimo que então se realizava com a região do rio Mira. Porém a rarefacção demográfica (o sítio era despovoado ou praticamente despovoado) obrigava a medidas complementares. O mesmo rei mandou então que Milfontes servisse de couto para homiziados, isto é, que, em troca do perdão para os seus delitos, pudessem vir habitar Milfontes os condenados pela justiça que o desejassem, no máximo de 50. Não se julgue, porém, que Milfontes se tornou, por isso, valhacouto de foragidos. Na verdade, apenas casos de delitos menores estavam abrangidos, e, depois de cumprida a pena, os homens podiam regressar às suas terras de origem. O couto de homiziados de Milfontes foi, assim, pouco eficaz para o povoamento da vila. Basta dizer que, meio século depois, esta tinha apenas 10 famílias, e não sabemos se alguma delas de homiziado. Ao longo dos séculos seguintes, o crescimento populacional de Milfontes foi lento, não se comparando, por exemplo, com o crescimento da sua freguesia do Cercal.

Corso e insegurança

A pirataria e o corso, em que um ou mais navios, propositadamente armados, atacavam embarcações e populações costeiras é antiga na história do mar. Nos séculos XVI a XVIII, o corso magrebino afligiu as costas portuguesas de forma dramática. A república corsária de Algel, integrada no império otomano desde 1519, foi uma das grandes protagonistas desta realidade. "Anda mouro na costa" é ainda uma expressão significativa. O atrevimento dos corsários do norte de África levou-os mesmo a atacar as costas da Inglaterra, Irlanda e Islândia, com farta "colheita" de cativos. Efectivamente os escravos europeus eram uma mercadoria valiosa numa Argel em expansão e carente de braços. Além disso, os corsários conseguiam resgates chorudos pelos cativos.

Muitos dos chefes corsários eram "renegados", quer dizer, homens provenientes de nações cristãs que, por diversos motivos, se passavam para o outro lado. Em finais do século XVI, Argel abrigava um grupo de rais, isso é comandantes corsários, que faziam do corso uma "empresa" de grossos proventos.

Ao entrar o último quartel do século XVI, Milfontes era uma pequena sede de concelho, com pouco mais de 30 moradores (mais ou menos 120 pessoas, entre homens, mulheres e crianças). Pela pobreza da terra, os habitantes praticamente estavam desarmados, não existindo qualquer arma de fogo ou, sequer, uma besta. Verificou-se, então, um arrasador ataque corsário. Em 1582, numa manhã de Verão, quando trazidos pelo bom tempo os corsários apareciam, várias galés reais penetraram no estuário e desembarcaram algumas centenas de homens armados. Podemos imaginar, as silhuetas esguias das galés, surgindo, aos primeiros alvores, por detrás da pedra da Atalaia, velas arriadas na calmaria matinal, remada rápida e cadenciada. No comando, o mais famoso rais de Argel, o renegado albanês Murata (ou Murad) Rais, tão astucioso quanto temerário. Segundo fonte quase contemporânea, os moradores foram surpreendidos, pois era dia santo e estavam na missa. Saqueada a vila, queimadas as casas e as culturas, capturada boa parte dos habitantes, os corsários retiraram deixando atrás de si uma povoação destruída.

Nos anos seguintes, a pressão corsária sobre Milfontes não abrandou, desertificando a vila. Aos corsários norte-africanos juntaram-se então os ingleses que, por via da guerra com Espanha, atacavam as costas portuguesas. Numa dessas “visitas”, em 14 de Julho de 1597, com a vila reduzida a meia dúzia de pobres moradores, os “hereges”, certamente ingleses, entraram no porto e cometeram toda a espécie de insolências: roubaram os parcos e pobres habitantes, profanaram a igreja e desrespeitaram as imagens, chegando a levar a imagem da Senhora atada ao pescoço de um burro, depois do que lhe deram punhaladas. Agindo, escreve um autor antigo, “não só como homens sem Deus e sem fé, mas como homens sem entendimento”, eles reflectiam o antagonismo religioso que caracterizava o afrontamento entre países católicos e protestantes. Esta foi a gota que fez transbordar o copo. No ano seguinte, iniciaram-se os estudos para a edificação do forte, cuja obra decorreu entre 1599 e 1602. 

Daí para diante, embora os corsários, especialmente argelinos, continuassem todos os verões a rondar e a desembarcar nas redondezas, os ataques directos à vila terminaram.  

In Vila Nova de Milfontes. História, 3.ª edição aumentada e corrigida, em preparação, de Apontamento Histórico Sobre Vila Nova de Milfontes, 1.ª edição, 1986; 2.ª ed., 1988.
 

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